Não escrevo para explicar a vida.
Escrevo porque observo sem anestesia e sustento o que vejo.
A vida se impôs cedo.
Atravesso-a como mulher e como mãe, tendo reorganizado a própria existência mais de uma vez.
Houve perda. Houve ruptura. Houve um tempo em que permanecer significava se apagar.
A convivência deixava marcas que não aparecem no corpo, mas reorganizam por dentro.
Sair não foi um gesto de força. Foi o limite de não continuar me traindo.
Foi nesse tipo de experiência que deixei de romantizar o que fere e de chamar de força aquilo que é apenas adaptação ao limite.
Interessa-me menos o que as pessoas dizem de si e mais o que repetem sem perceber.
As escolhas que aprisionam.
Os silêncios que se transmitem como herança.
As forças que organizam uma vida e aquelas que a corroem por dentro.
Não me interessa a escrita como ornamento.
Interessa-me a palavra que revela, que reorganiza, que interrompe um curso automático, inclusive o meu.
Escrevo porque ver, quando levado a sério, não permite retorno.
Se quiser acompanhar o que continuo escrevendo fora daqui, Instagram.
Júnia Lopes Paiva
