Não escrevo para explicar a vida.

Escrevo porque observo sem anestesia e sustento o que vejo.

A vida se impôs cedo.

Atravesso-a como mulher e como mãe, tendo reorganizado a própria existência mais de uma vez.

Houve perda. Houve ruptura. Houve um tempo em que permanecer significava se apagar.

A convivência deixava marcas que não aparecem no corpo, mas reorganizam por dentro.

Sair não foi um gesto de força. Foi o limite de não continuar me traindo.

Foi nesse tipo de experiência que deixei de romantizar o que fere e de chamar de força aquilo que é apenas adaptação ao limite.

Interessa-me menos o que as pessoas dizem de si e mais o que repetem sem perceber.

As escolhas que aprisionam.

Os silêncios que se transmitem como herança.

As forças que organizam uma vida e aquelas que a corroem por dentro.

Não me interessa a escrita como ornamento.

Interessa-me a palavra que revela, que reorganiza, que interrompe um curso automático, inclusive o meu.

Escrevo porque ver, quando levado a sério, não permite retorno.

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Júnia Lopes Paiva