Há palavras que, de tão repetidas, deixam de ser percebidas. Instalam-se no uso cotidiano com a leveza de quem não carrega consequências. “Pegar”, “comer”, “catar”, “usar”. À primeira vista, parecem apenas formas descuidadas de falar de desejo. Mas a linguagem raramente é apenas descuido. Ela revela, com precisão silenciosa, o modo como uma cultura organiza o olhar.
O vocabulário não nasce neutro. Ele é aprendido, transmitido, refinado ao longo do tempo. E, no caso da mulher, essa aprendizagem é reveladora. Houve um tempo em que ela era figurada como flor: bela, frágil, destinada à contemplação e à colheita. Em seguida, a metáfora se desloca. A mulher passa a ser fruto: algo que se prova, que se consome. Mais adiante, a imagem endurece. Surge a caça, e com ela a lógica da perseguição, da captura, do domínio.
As imagens se sucedem, mas não se anulam. Elas se acumulam. E, sob todas elas, permanece uma mesma estrutura: o homem ocupa o lugar de quem deseja, escolhe, age, conduz a narrativa; a mulher é colocada no lugar daquilo que é visto, tocado, tomado. Não se trata de um detalhe de linguagem, mas de uma forma persistente de organizar o mundo.
É por isso que as palavras importam. Não por um zelo excessivo com a forma, mas porque elas moldam a percepção. E a percepção, quando reiterada, deixa de ser apenas uma maneira de ver e passa a orientar o que se admite como possível. Nenhuma expressão isolada explica a violência. Mas há ambientes simbólicos em que certas ideias encontram menos resistência. E é nesse terreno que a noção de posse sobre o corpo da mulher deixa de soar absurda.
Quando uma sociedade se habitua a falar da mulher como quem fala de algo que se pega, se usa, se consome, ela já operou uma redução anterior a qualquer gesto. Primeiro, diminui-se a linguagem. Depois, ajusta-se o olhar. Por fim, o espanto se perde.
Recusar esse vocabulário não é um exercício de sensibilidade exacerbada. É um gesto de precisão. É interromper uma tradição que, sob aparência banal, continua a ensinar que uma pessoa pode ser tratada como coisa.
E dizer isso não é feminismo. É apenas não aceitar como costume aquilo que, desde o início, sempre foi degradação.
