A mulher raramente é silenciada de uma vez. Primeiro, ensinam-lhe o tamanho aceitável da própria voz.

Dizem onde deve estar, como deve viver, o que pode desejar sem parecer excessiva. Durante muito tempo, venderam à mulher a falsa nobreza de se partir em duas: ou mãe, ou sonho; ou doçura, ou firmeza; ou cuidado, ou mundo. Como se a inteireza feminina fosse, em si, uma forma de desordem.

Eu demorei a aceitar que essa escolha era fraudulenta.

A maternidade não me diminuiu. Também não me absolveu de mim. Não me fez menor, nem me autorizou a desaparecer com dignidade. Ao contrário: obrigou-me a encarar com mais seriedade a mulher que eu era. Há filhos que nascem do corpo. Há verdades que nascem do limite. E há mulheres que só começam a falar quando percebem que o silêncio cobrado delas já não é virtude, mas apagamento.

Escrever, para mim, nunca foi ornamento. Foi permanência.

Minha caneta não é instrumento de trabalho no sentido dócil da expressão. Ela é resistência. É ponte entre o que vivi e o que recuso esquecer. É também uma forma de legítima defesa contra tudo o que tentou me reduzir a uma função, a um papel, a uma utilidade.

Escrevo porque já não caibo no silêncio. Escrevo porque sei que existem outras mulheres exaustas de caber. Mulheres que aprenderam a servir antes de aprender a existir. Mulheres que foram lidas pela metade, julgadas pela aparência da força ou pela aparência da renúncia. Mulheres que cuidaram de tudo, menos da própria voz.

Não escrevo para parecer forte. Escrevo para não consentir com o apagamento.

Há uma diferença.

A força, quando vira performance, cansa. A palavra, quando encontra seu lugar exato, reorganiza. Ela não apenas cura: rompe. Não o mundo inteiro, de uma vez, mas a obediência interna que nos fazia aceitar como natural aquilo que sempre foi mutilação.

Hoje, não escrevo para pedir licença. Escrevo para ocupar existência.

Sou mãe, mas não só. Sou mulher, mas não no sentido estreito que esperavam. Sou voz, inclusive onde prefeririam a minha delicadeza muda. E, se durante muito tempo quiseram me ensinar a caber, hoje me interessa outra coisa: transbordar com sentido.

 

— Júnia Lopes Paiva